Business Agility é sobre como tornar um negócio incrível

Tenho defendido em meus artigos, e de forma geral na ABO Academy, que Agilidade de Negócios é um conjunto de valores, princípios e práticas utilizados pelas empresas para acelerar o crescimento e impactar positivamente as partes interessadas. Também defendo que, diante dessas duas grandes promessas, a Agilidade de Negócios deve ser tratada pela alta gestão das empresas como um estado futuro desejado de vantagem competitiva no contexto da Nova Economia Digital.

Só que Agilidade de Negócios não é um método ou framework, tampouco um conjunto de ferramentas que se “implanta” seguindo procedimentos pré-definidos que garantem o sucesso de um negócio. Business Agility é sobre como os Business Owners tornam os seus negócios incríveis desenvolvendo novas capacidades organizacionais que viabilizem:

  1. Responder rapidamente às necessidades dos clientes e demais partes interessadas,
  2. Adaptar-se às mudanças e tendências de um mercado cada vez mais VUCA e digital,
  3. Acelerar o crescimento pela inovação, criando tendências com seus diferenciais competitivos,
  4. Atrair, desenvolver e liderar talentos engajados com o seu propósito transformador, e
  5. Realizar as transformações organizacionais necessárias de forma sustentável.

Em tempos turbulentos como esses que estamos vivendo, você concorda que acelerar o crescimento de uma empresa é uma conquista de grande mérito para o desenvolvimento de negócios? E que fazer isso impactando positivamente todas as partes interessadas, e até mesmo a sociedade, é algo sensacional e muito difícil de ser copiado por outras empresas?

Foi com este raciocínio que passei a considerar a expressão Make Business Awesome o mantra dos líderes e gestores que buscam tornar a Agilidade de Negócios uma realidade nas empresas: os Agile Business Owners. Mas o que realmente torna um negócio incrível? Esta é a pergunta central que quero responder neste artigo, mas antes quero dar os devidos créditos às fontes da minha inspiração.

Torne as Pessoas Incríveis (Make People Awesome)

Kathy Sierra é uma americana especialista em programação e desenvolvimento de jogos que, nos últimos anos, passou a influenciar profissionais do desenvolvimento de produtos digitais com suas ideias sobre Experiência do Usuário (UX). Eu a conheci há mais de 10 anos, quando assisti o vídeo de sua palestra “Give Your Users Super-Powers“, realizada na conferência Business of Software em 2009, e uma das frases que ouvi naquele evento, e que referencio até hoje, é (minha versão adaptada de seu pensamento):

Não tente me convencer o quanto seu produto é maravilhoso. Ao contrário, me faça perceber o quanto eu fico maravilhoso utilizando o seu produto.

Kathy Sierra

Você é capaz de perceber o quanto poderoso é esse modelo mental pode influenciar a forma como concebemos e desenvolvemos nossos produtos e serviços? Você consegue compreender que este é um perfeito exemplo de Customer Centricity, um dos princípios da Business Agility, que tem como foco a solução dos problemas dos nossos clientes e não somente os problemas de nossas empresas?

Em seu último livro, “Badass: Making Users Awesome” (2015), Kathy expande sua visão sobre esta perspectiva e recomenda:

Comece a atualizar seus usuários ao invés de seus produtos. O valor está menos nas coisas que você entrega e mais nas coisas que você viabiliza. Por exemplo, não invista na criação de melhores câmeras, mas sim na criação de melhores fotógrafos.

Kathy Sierra

Confesso que Kathy foi umas daquelas sábias pessoas que influenciaram a minha jornada de especialista em Agile Product Management que durou até o final de 2011. Só que o pensamento de Kathy também influenciou o trabalho de  Joshua Kerievsky, um grande nome da comunidade ágil internacional que propôs uma atualização do pensamento ágil por volta de 2016, o modelo Modern Agile.

Se você vem estudando Métodos Ágeis há algum tempo, é bem provável que já tenha lido ou escutado alguma coisa do modelo Ágil Moderno, ilustrado na figura abaixo. Seus quatro princípios foram baseados no modus operandi das mais inovadoras empresas de tecnologia da informação que evoluíram o pensamento ágil original para o contexto das Lean Startups (modelo desenvolvido por Eric Ries que fez um grandes sucesso a partir de seu livro publicado em 2011):


  • Torne as Pessoas Incríveis
    (Make People Awesome)
  • Entregue Valor Continuamente
    (Deliver Value Continuously)
  • Experimente e Aprenda Rapidamente
    (Experiment and Learn Rapidly)
  • Torne a Segurança um Pré-requisito
    (Make Safety a Prerequisite)

Veja as palavras que Joshua escreve sobre o primeiro princípio:

No Ágil Moderno perguntamos como podemos fazer com que as pessoas em nosso ecossistema se tornem incríveis. Isto inclui as pessoas que usam, fazem, compram, vendem ou financiam nossos produtos ou serviços. Aprendemos seu contexto e seus pontos de dor, o que as retém e o que elas aspiram alcançar.

Joshua Kerievsky

Observe como Joshua amplia o espectro do impacto positivo de nossos produtos e serviços nas partes interessadas em nossos negócios. Se a missão de uma organização ágil é entregar valor continuamente para todas as pessoas do nosso ecossistema organizacional, precisamos pensar em como torná-las incríveis com nossa proposta de valor. E sabe o que é ainda mais genial nesta relação? Quanto mais valor entregamos, mais incrível ficamos! E quanto mais incrível ficamos, mais valor entregamos. Ou seja, este é um grande ciclo virtuoso de gestão de valor estimulado pela cultura das verdadeiras empresas da Nova Economia Digital.

Em resumo, Katy Sierra quer que desenvolvedores de produtos enxerguem além das features e foquem nos benefícios que tornarão seus usuários incríveis. Joshua Kerievsky quer que profissionais da agilidade moderna enxerguem além da entrega de valor para seus clientes e foquem nos benefícios que tornarão incríveis todas as pessoas do ecossistema organizacional. O que ambos têm em comum? O foco no impacto de nossos produtos e serviços, e é neste ponto que que venho propor mais uma ampliação do espectro de análise para fazer com que líderes e gestores de negócios pensem em como tornar os seus negócios incríveis.

Princípios Ágeis na Perspectiva de Negócios

O Manifesto Ágil teve sua origem no desenvolvimento de software e seus princípios estão diretamente relacionados com as perspectivas de produto, processos e pessoas, com muita ênfase na forma como as equipes colaboram e se auto-organizam para entregar valor para seus clientes e melhorar continuamente sua forma de trabalho.

Mas o próprio Manifesto nos dá algumas dicas de como devemos evoluir nossa forma de pensar para nos adaptarmos à perspectiva de negócios. Vamos relembrar o conteúdo de seus dois primeiros princípios:

  1. Nossa maior prioridade é satisfazer o cliente através da entrega antecipada e contínua de soluções de valor agregado.
  2. Acolhemos as mudanças de requisitos, mesmo em fase tardia de desenvolvimento. Os processos ágeis aproveitam a mudança para proporcionar vantagem competitiva ao cliente.

Na minha opinião, esses são os princípios mais próximos da perspectiva da gestão de negócios, só que ainda escrito na ótica de quem entrega produtos e serviços para os clientes de um negócio. O problema desta abordagem de comunicação é que os líderes e gestores de negócios continuarão associnando o pensamento ágil aos níveis tático e operacional de suas organizações. Por sinal, um comportamento muito comum de ser observado em grandes empresas que não nasceram no contexto da Nova Economia Digital.

Para mudar este cenário, proponho a decomposição desses dois princípios originais do Manifesto em quatro princípios verdadeiramente de negócios, capazes de influenciar a alta gestão e definir o tom do discurso da Agilidade de Negócios nas empresas:

  1. Nossa maior prioridade é impactar positivamente todas as partes do nosso ecossistema organizacional (além dos clientes).
  2. Fazemos isso pelo desenvolvimento contínuo de novas capacidades em nossas organizações (além das soluções).
  3. Aproveitamos as mudanças para desenvolver diferenciais e conquistar uma vantagem competitiva no mercado em que atuamos.
  4. Aceleramos nosso crescimento pela antecipação do retorno de investimentos em nossas mudanças.

Você percebe a diferença dessa abordagem com o anterior? A responsabilidade por tornar esses princípios uma realidade nas organizações não está mais nas mãos de quem desenvolve produtos e serviços, mas sim de que lidera o negócio, os Business Owners.

Confesso que já fui criticado por alguns “agilistas” por focar demais na perspectiva de negócios quando me refiro a Agilidade de Negócios. Para defender seus pontos de vista, diziam que eu dava mais importância aos resultados e capacidades do negócio do que às pessoas, processos e produtos que sustentam essas capacidades.

Alto lá! Se você vai continuar falando dos mesmos aspectos tratados nos últimos 20 anos desde a criação do Manifesto Ágil, por que agora você quer chamar de Agilidade de Negócios? Levar o pensamento ágil para outras áreas da empresa (além da TI) é assunto da Agilidade Organizacional e até mesmo da Operacional. Agilidade de Negócios é sobre como tornamos os nossos negócios incríveis e precisamos traduzir essa forma de pensar para nível estratégico da organização.

Torne os Negócios Incríveis (Make Business Awesome)

Steve Denning, um dos pioneiros a promover a agilidade na alta gestão empresarial, defende que a próxima fronteira do Pensamento Ágil está na gestão estratégica das empresas. Seu livro The Leader’s Guide to Radical Management de 2010 já dizia na capa “Re-inventando o local de trabalho para o século XXI: Inspirando Inovação Contínua, Profunda Satisfação no Trabalho e Encantamento do Cliente”.

Você concorda que esses três elementos apontam para a direção de como tornar um negócio incrível? Este é um pensamento estratégico puro que visa a evolução organizacional com uma perspectiva de negócios de fora para dentro da empresa. Afinal, até mesmo a satisfação profunda com o trabalho depende de um propósito transformador maior, do desenvolvimento de maestria naquilo que escolhemos para nossas vidas profissionais e da autonomia para aplicar nossa maestria na realização desse propósito (a conclusão da pesquisa de Daniel Pink apresentada em seu livro Motivação 3.0 – Drive: A surpreendente verdade sobre o que realmente nos motiva.

É crucial que você também perceba o discurso estratégico por trás dos diversos modelos de Agilidade de Negócios que estão se consolidando no mercado coporativo. Tente perceber as relações de causa-efeito existentes entre resultados (valor de negócio), capacidades (potencial de geração de resultados) e soluções (recursos que suportam as capacidades). Muitos desses modelos ainda fortalecem os níveis tático e operacional em suas premissas (origem do Ágil), mas outros já estão fortalecendo o pensamento estratégico e elevando o discurso para o nível de negócio.

Como estratégia não é sobre planejamento mas sim sobre análise e síntese dos cenários atual e futuro de uma organização, dos riscos associados a estes cenários e dos caminhos possíveis para viabilizar a mudança, vou recorrer ao princípio ágil da simplicidade para resumir numa frase o que Business Owners devem saber sobre Business Agility com um mindset estratégico:

Business Agility é sobre como tornar o seu negócio incrível!

Sensacional! Mas o que realmente define um negócio incrível? Vamos voltar aos quatro princípios que derivei do Manifesto Ágil para combiná-los com o que aprendemos com Kathy Sierra, Joshua Kerievsky, Steve Denning e Daniel Pink nas seções anteriores:

  1. Se nossa maior prioridade é impactar positivamente todas as partes do nosso ecossistema organizacional, indo além dos nossos clientes, a estratégia de um negócio incrível deve partir de um propósito transformador que impacte até mesmo a sociedade.
     
  2. Se fazemos isso pelo desenvolvimento contínuo de novas capacidades organizacionais, indo além da perspectiva restrita do desenvolvimento de soluções, um negócio incrível conta com pessoas incríveis, processos incríveis e tecnologias incríveis que suportam essas capacidades.
     
  3. Se aproveitamos as mudanças para desenvolver diferenciais e conquistar uma vantagem competitiva no mercado em que atuamos, um negócio incrível se distingue da concorrência pelas experiências incríveis que proporciona para seus clientes, parceiros e colaboradores.
     
  4. Se aceleramos nosso crescimento pela antecipação do retorno de investimentos em nossas mudanças, um negócio incrível gera resultados incríveis como o crescimento exponencial nos drivers de valor financeiro, clientes, mercado e sociedade.

Acredito que um negócio pode ser considerado incrível pela visão de um líder de negócios da Nova Economia Digital quando ele é suportado por um propósito incrível, resultados incríveis, capacidades incríveis e experiências incríveis. E sabe qual a relação desses elementos com o modelo Modern Agile?

  • Resultados incríveis representam a entrega contínua de valor para líderes pragmáticos;
  • Propósito incrível representa o tornar todas as pessoas incríveis para líderes visionários;
  • Capacidades incríveis representa a rápida experimentação e aprendizagem para líderes coaches;
  • Experiências incríveis representa tornar a segurança um pré-requisito para líderes servidores.

A diferença é que procurei subir o nível de abstração do modelo para atingir a alta gestão das empresas com um discurso de negócios da Nova Economia Digital (Organizações Exponenciais?). É por esta razão que recomendamos aos Agile Business Owners considerar esses quatro elementos como a representação do estado futuro desejado das organizações que buscam a verdadeira Business Agility. Você conhece algum líder ou gestor de negócio que promove esses quatro elementos em suas ações de nível estratégico, tático e operacional?

Para Pensar …

É muito importante para quem realmente quer tornar a Agilidade de Negócios uma realidade nas empresas elevar o nível do seu discurso para além do desenvolvimento de produtos e serviços. Para isso, sabemos que é essencial ter uma visão sistêmica da organização (na realidade, do ecossistema organizacional) e também um pensamento crítico sobre o que é valor ou desperdício diante dos resultados esperados do negócio.

Se você deseja acelerar a conquista de resultados da transformação ágil e digital de sua empresa, introduza os valores, princípios e práticas da Agilidade de Negócios na alta gestão com um vocabulário verdadeiramente de negócios. Abra mão das abordagens táticas e operacionais com foco em pessoas, processos e ferramentas da agilidade tradicional e pense em como seus líderes irão tornar o seu negócio incrível.

Para concluir, gostaria de reforçar que pessoas, produtos, serviços, processos e tecnologias continuarão sendo estratégicos para a organização, pois são eles que suportam o desenvolvimento das novas capacidades de crescimento. O ponto é que está na hora de aprender a falar de negócios quem realmente tem a responsabilidade de desenvolver os negócios no contexto da Nova Economia Digital e introduzir o papel do Agile Business Owner como catalisador dessa mudança.

Por favor, contribua com esta discussão escrevendo seus comentários neste artigo. É importante sabermos qual a visão dos líderes de negócios em relação aos temas que apresentei acima. É com o feedback de vocês que podemos calibrar nosso discurso e aprimorar a forma como a ABO Academy desenvolve Agile Business Owners.


P.S.: Este artigo foi originalmente publicado na língua inglesa na coluna Business Agility Getting Real que criei no LinkedIn. Se você tiver interesse em assinar sua newsletter ou compartilhar este conteúdo naquele idioma, ficarei muito grato à você.

Um dos precursores dos Métodos Ágeis (2002) no Brasil, foi pioneiro na sistematização do papel de Business Owner como catalisador da Business Agility nas empresas (modelo apresentado na Agile Conference 2019, Washington, USA). CEO da SURYA Consulting e fundador da ABO Academy, a primeira academia no mundo especializada no desenvolvimento profissional de Agile Business Owners, atua como autor, consultor, mentor, professor e palestrante no nível executivo de grandes empresas. Autor do Guia de Referência do Agile Business Owner e dos modelos Business Agility Getting Real™ e Agile Business Ownership™. É coautor da Agile Extension to the Business Analysis Body of Knowledge (IIBA/Agile Alliance, 2012) e colaborador no Introduction to Product Ownership Analysis (IIBA, 2020). Criador do canal Lean Business Analysis Brazil no YouTube. É professor em diversos programas de MBA na PUCRS.

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Comentários

  1. Pra mim era a engrenagem que faltava, quase que uma ignorância intencional a alta administração não falar destes “termos técnicos”, está aproximação dos responsáveis de produto com a parte estratégia é a “cola” que falta pra está roda ficar redonda.
    Pra mim faz muito sentido!

    1. Obrigado pelo comentário, @jadersonmr! Fico contente que tenhas gostado do artigo. Na realidade, o que estamos propondo é que a Agilidade de Negócios deve partir dos verdadeiros líderes de negócios (Alta Gestão). Do contrário, continuaremos testemunhando a disfunção do “me engana que eu gosto”, fazendo com que o middle management (e até mesmo a operação) acredite que realmente terá poder de transformar algo no nível estratégico das empresas. Portanto, nem diria que estamos colando algo, mas construindo uma PONTE entre o abismo da comunicação entre alta gestão e os demais níveis gerenciais das empresas.

      O papel de Agile Business Owner existe para fazer com que alta gestão até o middle management tenham uma clareza sobre suas responsabilidades, autoridades e modelos mentais necessários para orquestrar tudo isso de forma efetiva. E quem disser que isso não é necessário nas empresas, é porque não tem a mínima ideia do que realmente é gestão de negócios.

      Um grande abraço!