Gestão de Valor nos Negócios

Gestão de Valor nos Negócios

É impossível iniciar qualquer debate sobre “definição de valor” sem mencionar um pouco da história do Lean, ou pensamento enxuto como também ficou conhecido no Brasil. Isso porque, esta seja talvez a abordagem de gestão pioneira em colocar o cliente de fato no centro de tudo.

O pensamento Lean e gestão de valor nos negócios

O pensamento enxuto ficou bastante conhecido no contexto empresarial com o lançamento do livro de Eric Ries, Lean Startup, em 2011. Mas, sabemos que os valores e princípios do Lean remetem a muito antes. A chamada “Gestão Enxuta” deriva do Sistema Toyota de Produção, também conhecido como Toyotismo, é um sistema de produção desenvolvido pela Toyota entre 1947 e 1975, que aumenta a produtividade e a eficiência, evitando o desperdício. São inúmeros autores que ao longo da história trouxeram suas interpretações sobre a Gestão Enxuta, alguns são emblemáticos e merecem ser citados aqui, como por exemplo a “Máquina que mudou o Mundo” de 1991 baseado no estudo de cinco anos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, sobre o futuro do automóvel, escrito por James P. Womack, Daniel T. Jones e Daniel Roos. Não demorou muito para os mesmos James P. Womack e Daniel Jones lançarem o livro A mentalidade enxuta nas empresas: elimine o desperdício e crie riqueza”. A primeira publicação aconteceu em 1996.

O que os dois livros trazem de grandes ensinamento para o mundo da gestão é exatamente em como o pensamento Lean deveria conduzir empresas à compreenderem que o valor é definido por quem realmente é capaz de garantir o futuro de uma organização: seus clientes.

Diante disso, fica claro que tudo o que não estiver em conformidade com as expectativas do cliente é visto como desperdício em uma gestão enxuta. O desafio das organizações, continua sendo capacitar profissionais a produzirem melhor pela eliminação do desperdício, que por consequência requer um entendimento das reais necessidades dos consumidores.

É muito provável, tendo em vista relatos de diversos profissionais, gestores, líderes e consultores, que a razão para o fracasso de muitas “transformações ágeis” pode ser a incapacidade de mudar as práticas de liderança ou de gestão, tornando imprecisa a definição do que é valor para o negócio.

Precisamos olhar da porta pra fora.

Dado este contexto, o 11º Encontro da Comunidade de Prática de Agile Business Owners do Brasil (CoP ABO Brasil), realizado no dia 03/07/2021, trouxe para o debate este tema com o título GESTÃO DE VALOR NOS NEGÓCIOS: Qual o valor da transformação ágil para os negócios de sua empresa?”.

A seguir vou tentar reproduzir parte de todos os ensinamentos adquiridos na 1h30 de evento. Sempre fica o convite para assistir, aqui, o vídeo na íntegra, basta ser membro da ABO Academy e você pode ver e rever este e os demais vídeos de todas as edições.

O evento começou efetivamente com algumas provocações trazidas por Fábio Cruz. Entre elas, a de que, ainda hoje, é muito comum que os times se preocupem em entregar resultados rápidos para a sua empresa. O desejo passa a ser entregar mais com menos e o foco acaba para dentro, quando deveria ser ao contrário. Dessa forma, Cruz destacou no seu discurso que a primeira coisa a definir é: o que é valor para o negócio e seus clientes. É necessário fazer o exercício de olhar de fora para dentro. Compreender o que o business está gerando de impacto lá fora e como esse impacto é percebido pelo mercado e seus clientes. Muitas vezes, o problema ou dor da sua empresa tem sua origem fora dela.

Logo, resgatando os ensinamentos do pensamento enxuto, o desafio hoje é quebrar os paradigmas de gestão que não permitem que organizações compreendam as expectativas dos clientes. Nesse caso, não existe a definição de cliente interno, o cliente está fora da organização, mas faz parte da cadeia de valor de um negócio como uma parte interessada no serviço ou produto oferecido por uma empresa.

Há uma certa dificuldade dos líderes das organizações em analisar qual estado atual e qual o desejado para seus negócios. E ainda mais nebuloso: poucos percebem que entre estes dois cenários – o atual e o desejado – existe o factível, como trouxe Vitor Massari em sua apresentação. A justificativa trazida por Massari para afirmar que um cenário factível existe é de que o mundo de verdade possui algumas restrições, que podem fazer com que sua estratégia de mudança nunca atinja o cenário desejado.

Paralelo a isso, é importante definir quais problemas ou desafios você quer resolver para o seu negócio e traçar métricas claras, para saber se o caminho de mudança será evolutivo. Ou seja, como saber quando se está melhorando continuamente, enquanto avança pelo caminho da transformação de seu negócio? Segundo Massari, o que se percebe nas organizações, hoje em dia, é que o cenário factível está muito próximo do atual, dando uma impressão de “cheque em branco”. Essa impressão se dá porque muitas métricas de melhoria do business ainda são da porta para dentro.

A definição de valor no mundo exponencial

O modelo de gestão aprendido ao longo dos anos foi o da previsibilidade e de definição de metas. Crescer tantos por cento ao ano, estar acima do crescimento do mercado e por aí vai. Da mesma forma, mesmo as consultorias que se posicionam em um patamar mais contemporâneo de gestão acabam repetindo estas afirmações, agravando o problema.

Em consequência disso, muitas vezes, gestores com medo de se comprometer com desafios de negócio, aceitam atingir o “factível” como salientou Vitor Massari, aceitam ficar na zona de conforto e garantir um “entregável possível”. Mas o ponto é, a definição de valor em um mundo de abundância deve evoluir no mesmo ritmo em que a tecnologia proporciona novas oportunidades para o desenvolvimento de melhores capacidades de negócio. Um ponto de equilíbrio disso foi reforçado por Fábio Cruz, ao afirmar que, para definir o tamanho do desafio e o possível cenário desejado de uma organização, deve-se levar em conta o contexto desta empresa.

Uma nova perspectiva de valor sob o viés do negócio

Mais importante que inovar e ser digital é compreender a perspectiva do cliente, um conceito característico das organizações adaptativas, herdado do pensamento enxuto (lean), como afirmou Vitor Massari. E trazendo ainda mais luz ao debate, ficou nítido que algumas empresas já despertaram para um mundo em que o produto não é o negócio. Essa discussão emerge quando trazemos à tona as fronteiras entre operação do negócio e resultados de negócio.

Logo, o foco no cliente é um driver fundamental para empresas da nova economia digital, mas não deve ser o único. O papel de Business Owner, que vem ganhando força nas organizações, deve ter a capacidade de ampliar a visão do negócio e trazer à tona resultados que estão ao lado da satisfação do cliente. Elementos como Resultados Financeiros, Percepção de Marca, Posicionamento de Mercado e por fim, Impacto positivo na Sociedade. Logo, quando falamos de uma nova perspectiva de valor sob o viés de negócio, não estamos negligenciando o impacto nos clientes, mas garantindo que o negócio seja capaz de gerar valor por mais tempo para todas as partes interessadas, ou seja, clientes, acionistas, colaboradores, mercado e sociedade.

Um último tópico

Gostaria de deixar um último aprendizado, quase um convite para que você possa ler esse texto, assistir ao vídeo e trazer a sua percepção sobre tudo que foi falado. Ao meu ver, o pensamento ágil, junto ao lean e uma visão exponencial, representam um comportamento persistente de um grupo de pessoas, que se mostram flexíveis para acomodar mudanças esperadas ou inesperadas, rapidamente dentro de um contexto de negócio. Estas mudanças, por sua vez, são provocadas pela constante evolução das necessidades dos clientes, que acabam definindo o que é valor para uma organização. Como disse Kathy Sierra, empresas não devem dizer o quanto elas são incríveis, mas devem buscar tornar os seus clientes incríveis.

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